terça-feira, 2 de março de 2021

GUERRA COMERCIAL PELA VACINA – A VITÓRIA DISCRETA DO BRASIL

 

No início da pandemia, o Brasil levou uma surra. Não conseguiu comprar da China todos os respiradores e equipamentos que queria. Os EUA levaram tudo o que o dinheiro poderia comprar. Outros países ricos levaram as migalhas. Nós não conseguimos muita coisa.

 Nas vacinas, por outro lado, o Brasil surpreendeu.

Qualquer um apostaria que o Brasil ficaria no fim da fila. Antes da África, talvez, porque não somos assim tão pobres. Mas jamais no pelotão de frente.

  

Surpreendentemente, o que temos? Até hoje, 8 milhões de doses. Talvez pouco se comparado com nossa população. Mas é muitíssimo, se comparamos com a concorrência.

 A economia dos EUA é 15 vezes maior que a nossa, e eles tiveram apenas 70 milhões de doses (9 vezes mais).

A China é 10x mais rica, mas teve somente 5x mais doses.

A economia do Reino Unido é o dobro da nossa. Até agora, eles asseguraram pouco mais que o dobro das nossas doses. Um dos principais laboratórios é deles.

A Índia é duas vezes mais rica que o Brasil e teve o dobro de doses. Sendo que eles têm laboratório próprio e nós não temos.

O Brasil recebeu mais doses do que a Itália, Áustria, França, Espanha, Alemanha e México.

É claro que é preciso fazer ajustes pelo tamanho da população para saber quais países estão proporcionalmente melhor. Mas o que eu quero ressaltar é que, para um país de grande população, o Brasil não está mal. Compara-se bem com índia e China e até com os EUA.  E somos mais pobres do que eles.

 

Como isso foi possível?

 

A vacina equivale a equipamento militar. Lembram quando o Brasil ficou anos negociando para saber qual avião de guerra iria comprar? O governo chegou a anunciar que seria o da França, mas no fim o exército comprou o Gripen, sueco.

Com a vacina é a mesma coisa. O laboratório de um determinado país produz. Mas só pode vender a outros países se o governo do país onde ele está aprovar. De outra forma, a produção é confiscada.

Além disso, a compra não tem sido feita entre empresas, mas diretamente entre um laboratório (seja ele privado ou estatal) e os governos dos outros países. É uma compra oficial, feita pelo governo federal, e sujeita às burocracias de estilo.

A posição do Brasil nesse cenário é de absoluta fragilidade. Nosso câmbio vale pouco, temos pouco dinheiro (pouco para competir com a Europa e América do Norte, pelo menos) e nosso procedimento regulatório é emperrado.


O Brasil foi astuto

Usando as boas relações que tem com a Índia, conseguiu doses de lá.

Usando um pouco da mística dos BRICS e da pouca força de negociação que tem contra a China, também assegurou várias doses da vacina chinesa (aqui, a contribuição do Dória ajudou, pois ele capitaneou o projeto).

 Em paralelo, centros de pesquisa em São Paulo e Minas Gerais estão desenvolvendo vacinas próprias que, com sorte, chegarão a tempo de complementar as doses importadas.

Com isso, o Brasil ganhou poder de negociação contra a Pfizer, a fim de tentar contornar as cláusulas contratuais que o laboratório vem impondo a vários países da América Latina.

 CONTRATO COM A PFIZER

Eu fiz um outro post sobre as exigências da Pfizer (aqui). Em resumo, o Poder Executivo tem medo de aceitá-las, porque receia que algumas cláusulas precisem de autorização expresso do Congresso, por meio de lei. 


As cláusulas mais graves solicitadas pela Pfizer são:

a) Instituição de garantia (similar ao penhor) sobre bens brasileiros localizados no exterior, que ficarão bloqueados. Esta, mais do que qualquer outra, é problemática. Abrir mãos de ativos não é algo que o Poder Executivo possa fazer livremente.

b) isenção total de responsabilidade por atrasos na entrega;

c) isenção total de responsabilidade caso haja efeitos colaterais negativos;

 

Por que a geopolítica das vacinas é importante?

Os estudos sobre as causas, a mortalidade e o tratamento para o COVID-19 demorarão décadas para serem concluídos.

As estatísticas precisam ser amplamente revisadas, pois cada país adota um critério diferente para o diagnóstico e para a contagem de mortos.

Já a capacidade de obter vacinas é um dado objetivo, imediato e que traz consequências estratégicas e militares.

A China sabe que não conseguiu fornecer tantas doses quanto os EUA.  Sem falar que a eficácia da vacina chinesa é, aparentemente, menor.

A quadra de países EUA, Inglaterra, Israel e Índia sabe que conseguiu produzir, fornecer e distribuir as vacinas melhor do que qualquer outro bloco. A Inglaterra, inclusive, conseguiu sonegar vacinas para União Europeia, demonstrando que, neste ponto, sua saída do bloco trouxe benefícios geopolíticos.

O Brasil, mal e mal, conseguiu não passar vergonha, jogando ao mesmo tempo com Índia e China, enquanto tenta negociar com os EUA.

Esses fatos contam como vitórias em campo de batalhas. São inegáveis e muito significativos. Da próxima vez que a ONU vier discutir sobre a capacidade de resposta a pandemias, esses países terão o que dizer. Os outros terão que ouvir.